Guilherme Benoni
Vivendo em um país onde mais da metade da população é negra, pareço até estar sendo irônico ao dizer que passamos a vida inteira nos sentindo minoria.

O sentimento de pertencimento, e reconhecimento definitivamente são os maiores desafios para um afro-brasileiro. Vivendo em um país onde mais da metade da população é negra, pareço até estar sendo irônico ao dizer que passamos a vida inteira nos sentindo minoria. Não nos vemos na televisão, não nos vemos nas revistas e jornais, e nem em carreiras profissionais de prestígio.

Nossa história foi apagada. Os livros de história escritos pelos homens brancos, nos mostram somente que nossos ancestrais foram trazidos do continente africano para serem escravizados no Brasil. Mataram a alma do negro, apagaram seu passado, cancelaram seu direito a dignidade, e por séculos perdurou um período de horror e crueldade, chamado: escravidão.

Anos se passaram e chegou ao fim a escravidão, e os negros sem nenhum amparo e reconhecimento, foram jogados nas ruas com a sua falsa liberdade, sem direito a terra, e as demais necessidades. E assim se construiu uma sociedade com bases tão desiguais.

As relações de poder pouco mudaram. E todo afro-brasileiro, mais de 100 anos após o período da escravidão, ainda sente o reflexo dessa desigualdade nos dias atuais, concluindo que pouco mudou. Mas se nos livros de história não contem respostas, como sabemos sobre nós? Quem eram nossos ancestrais vindos da África? Quem eramos antes de tudo isso? 

Mas o todo o saber do negro, se manteve geração após geração, através das histórias contadas pelos mais velhos. Na música, na dança, nos saberes antigos dos nossos avós, se manteve a ligação com a nossa raiz. Quiseram nos tirar o valor da nossa história, e apagar nosso passado, para não nos reconhecermos, e assim jamais nos erguermos.

Os traços que carregamos, nossos cabelos crespos, nossos narizes, são elementos que se dividem nos nossos tons de pele variados, e que nos tornam frutos diferentes de uma mesma raiz. Sem dúvida, não há nada melhor do que se reconhecer e se orgulhar pela sua história, e por tudo aquilo que você representa. Isso que trás a vida de volta para almas antes mortas. O negro é vida. É a vida que sobrevive em meio ao extermínio.

Ser negro no Brasil, é estar caminhando contra o tempo, para chegar a um ponto de partida, que dará início a um novo tempo. Um tempo de vida. Negra vida, para cada negro. Um tempo onde os negros possam se orgulhar de todo o valor que carregamos, e que possamos ser de volta tudo aquilo que eramos antes de ter nossa história violada.

Mas o que eramos ao certo? Estamos a procura. Seguimos em território inimigo, retomando a vida e sobrevivendo, nos reconhecendo, nos amando, ocupando todos os espaços, e sendo espelho para que outros negros se reconheçam. Representatividade, amor, e sem perder as esperanças de que um dia possamos ser livres.

Living in a country where more than half of the population is Black, it seems ironic to say that we lived our whole lives feeling like the minority. 

The feeling of belonging, and recognition are definitely the biggest challenges for Afro-Brazilians. Living in a country where more than half of the population is Black, it seems ironic to say that I lived my whole life feeling like a minority. We don't see ourselves on TV, we don't see ourselves in magazines and newspapers, we don't even see ourselves in prestigious careers. 

Our history was erased. The history books written by White men only showed us that our ancestors were brought here from Africa to be enslaved in Brazil. They killed Black people's souls, erased their past, canceled their rights to dignity, and for centuries a period of horror and cruelty lasted, called: slavery.

Years passed and the end of slavery finally came; Black people, without any protection or self-recognition, were thrown in the streets with their false sense of liberty, with no rights to land or any basic human necessity. And so, a society with such unfair foundation was built. 

The structure of power has barely changed. Every Afro-Brazilian, more than 100 years post-slavery, still feel the reflection of this inequality in the present day, thus proving that little has changed. However, if the history books don't have answers, how do we understand ourselves? Who were our ancestors? Who were we before all of this?

But the Black person's entire knowledge was preserved from generation after generation through the stories told by elders. Through music and dance, stories from our grandparents, we remained linked to our roots. They wanted to take away the value of our history and erase our past so that we couldn't recognize ourselves, so that we would never rise.

The traits we carry, our coarse hair, our noses, are all elements that divide us; our different skin tones turns us into different fruits from the same root. Without a doubt, there is nothing better than to know and be proud of your history and everything you represent. This is what brings life back into souls that were once dead. The Negro is life. It is the life that survives amid extermination. 

Being Black in Brazil means walking against time to reach a checkpoint that will hopefully start a new era. An era of life. The "Black" life, for each Black person. An era where Blacks can be proud of all the value we carry, and that we could be everything we once were before our history was violated.

But what exactly were we? We're searching for it. We are on enemy territory, taking back our lives and surviving. We recognize ourselves, we love ourselves; we serve as mirrors so that other Black people can, too, recognize themselves.  Representation, love, and hope that one day we can be free.