Larissa Neves

INSTAGRAM: @LAARI_NEVES IDADE: 21 ANOS • ESTUDANTE DE PSICOLOGIA

Há quatro anos, começou a minha caça incessante de saber mais e mais o quão bom é ser negro e a riqueza que nosso povo tem.

Minha infância e adolescência não foram muito diferentes de muitas meninas negras: Sempre fui muito zoada por ter o cabelo e cor de pele que tenho. Na escola, por exemplo, eu lembro de um episódio (dentre vários outros) em que um amiguinho de turma me chamou de "palito queimado" e "cabelo de bombril". Daí, uma amiguinha (branca) me defendeu dizendo a ele que aquilo era racismo. "Racismo? Claro que não!"- pensei. Lembro que briguei com ELA por ter me defendido, afinal, eu era mesmo um "palito queimado do cabelo duro". Cresci conformada com o fato de que nunca seria aceita. Nunca os meninos gatinhos do colégio iam gostar de mim a não ser como amiga/parceira deles. Eu mesmo me diminuía, me excluía e até incentivava a galera a me zoar com vários apelidos. Queria ser aceita. Queria estar entre a galera. E a única maneira disso contecer, para a Larissa da época, era "não cair na pilha". 

Meu cabelo sempre foi muito volumoso e isso me incomodava de uma tal forma... Era um saco ouvir o tempo inteiro que eu parecia um leão. Eu só saía com ele preso. Uma vez, minha tia estava fazendo escova no cabelo da minha prima e quis fazer também. Passei tanto tempo sentada na cadeira e no final o meu cabelo ficou tão horrível, que decidi não alisar mais por todo o trabalho que daria. Ainda que fizesse escova todos os dias, nunca ficaria o "liso perfeito". Então, era melhor ficar com o meu cabelo sempre preso mesmo. Sempre passei químicas e mais químicas no cabelo para tirar o volume dele. E, então, de tantas químicas diferentes começou a cair e ficar LARANJA (com a uma química muito forte). Eu cortava, passava química de novo, e de novo, de novo...  um dia pensei "chega! não quero mais usar nada no meu cabelo!"

Obviamente, essa decisão não veio assim do nada, né?! Na época, conheci duas pessoas que me fizeram conhecer mais outras pessoas. No final, todas essas pessoas, sem me dizer nada, apenas sendo quem elas são e tendo o cabelo que têm, serviram de espelho para mim. A tão famosa REFERÊNCIA. Lembro que pensava "como fulana tem coragem de sair com esse cabelo?(...) se ela pode, eu também posso" - Pronto! Foi aí que "me deu a maluca" e, sem saber o real motivo e significado daquilo, eu respirei fundo e disse "corta tudo!". Fiquei com o cabelo "joãozinho" (como chamamos aqui quando se corta o cabelo bem curtinho).

Vai fazer exatamente quatro anos que estou com o meu cabelo natural. Vai fazer quatro anos que começou toda minha descoberta da força que meu cabelo e minha cor tem. Há quatro anos, começou a minha caça incessante de saber mais e mais o quão bom é ser negro e a riqueza que nosso povo tem. Há quatro anos, descobri a felicidade de ser livre com o cabelo que tenho, sem ter vergonha de nada. Há quatro anos, descobri-me MULHER PRETA! Neste sentido, sinto-me na obrigação de - diariamente - ajudar e dar esse poder a outras mulheres e homens pretos. 

Não é fácil. Eu mesmo, nessa caminhada, passei por várias situações complicadas (como ter que pedir demissão da empresa que trabalhei porque meus colegas de setor resolveram fazer piadas sobre mim e meu cabelo), mas não há nada mais gratificante que receber uma mensagem "Lari, quero começar a minha transição. Me ajuda? Você é minha inspiração!".

INSTAGRAM: @LAARI_NEVES IDADE: 21 ANOS • ESTUDANTE DE PSICOLOGIA

Four years ago, I began my unceasing quest to find out more and more about how good it is to be black and our people’s rich culture.

My childhood and adolescence weren't much different from other black girls: I've always been made fun of for having my type of hair and skin color. At school, for example, I remember a classmate calling me "burnt matchstick" and "hair like bombril (steel wool using to clean tough surfaces)". When that happened, a friend (who happened to be white) defended me telling him that what he was doing was called racism. "Racism? Of course not!" - I thought. I remember arguing with HER for defending me, after all, I really was a "burnt matchstick with coarse hair". I grew up conformed with the fact that I would never be accepted. The cute boys in school would never like me enough to date me, but instead just to be their friend. I belittled and excluded myself, sometimes helping my circle of friends make fun of me by suggesting nicknames. I wanted to be accepted. I wanted to be included in the crowd.

My hair has always been very voluminous and that really bothered me... it was so aggravating to always hear that I looked like a lion. I only left the house with my hair in a ponytail. One time, my aunt was straightening my cousin's hair and I wanted her to do the same to my hair. I spent so much time sitting on that chair and when she was done, my hair was so horrible that I decided to never straighten my hair again since it took so much work. Even if I straightened my hair everyday, it would never be "perfectly straight". So, it was better to just always have my hair in a ponytail. I continuously put chemicals in my hair to take away its volume. With that, my hair started to fall out and turn orange (one of the chemicals were too heavy). I would cut it, put more and more chemicals on it, and one day I thought, "enough! I don't want to use any other chemicals on my hair!"

Obviously, that decision didn't happen out of nowhere, right? At the time, I met two people that caused me to meet others. Eventually, all of those people, without saying anything but simply being who they were and having the type of hair they did, served as mirrors for me. I remember thinking, "how does she have the courage to leave the house with her hair like that? If she can, so can I". That was when I decided to take a deep breath, and say "cut it all off!". I had a low cut for a while after that. 

It has been exactly four years since I went natural. It has been four years since I started my journey to discover the strength in my hair and my skin color. Four years ago, I began my unceasing quest to find out more and more about how good it is to be black and our people's rich culture. Four years ago, I discovered the happiness in being free in the hair I was given, and not being embarrassed of anything. Four years ago, I discovered myself as a BLACK WOMAN! Because of that, I feel obligated to help give this same power to other black men and women. 

It's not easy. During this journey, I experienced various complicated situations, (like resigning from a position because my colleagues decided to make fun of me and my hair), but there is nothing more gratifying than to receive a message saying "Lari, I want to start my natural hair transition. Can you help me? You're my inspiration!".