Kharen Vasconcelos Andrade

INSTAGRAM: @VASCONCEL0S IDADE: 16 ANOS • ESTUDANTE

Não sou algo de outro mundo; meu cabelo é crespo, meu nariz e lábios são largos, minha cor não é motivo de curiosidade.

Eu sou filha de pai negro com mãe branca. Meu pai nunca se reconheceu como negro e minha mãe acredita ser negra por descendencia. Desde pequena cresci com a ideia de que ser negra não era bom, sendo assim embranquecida pela sociedade que tanto dita regras. Há alguns anos atrás meu cabelo era ruim, bombril, vassoura de bruxa. Eu ouvia piadas sobre o meu cabelo e sua “rebeldia”; na escola sempre era convidada a sentar nas mesas de trás para “não atrapalhar a visão dos colegas”.

Minha cor sempre foi motivo de diferença (continua sendo) e sempre soltavam uma como “conte para nós como é ser assim”... assim como? Percebi junto com o reconhecimento de minha identidade que no Brasil e coincidentemente não só aqui, que ser negro só é bom quando não se é, quando é uma camiseta de Rapper famoso, um cabelo ou até religião, vejo-os se apropriando da nossa cultura e símbolos de resistência como forma de “homenagem” mas são os primeiros a esconder o celular no bolso quando um homem negro passa na rua... 

Eu poderia ter sido esquecida e apagada, já que tempos atrás, cabelo crespo era motivo de vergonha, o padrão imposto, mas sempre resisti. Resistência é algo que sou grata, principalmente aos meus pais que nunca me deixaram alisar os cabelos e nunca me deixaram abaixar a cabeça. “Você não é negra é morena”, “você nem é tão escura, é mulata”; fui me apegando a isto que me intitulavam já que nunca foi bom ser negro no Brasil. Este relato não é só meu, com certeza é também de outras garotas, mulheres, que renegaram e ainda renegam sua negritude. 

Mesmo estando em um país de grande miscigenação, ainda há brancos que se consideram puros e que desprezam o negro independentemente do mesmo conter descendência africana. Como jovem afro-brasileira, afirmo que há renegação de raça pelos próprios brancos Brasileiros. Muitos ainda tem dificuldade e até preconceito de entender que não há porque se sentir superior por ter a pele mais clara se seu sangue é misturado. Cada negro desse país sabe sua realidade, sabe que a renegação e o preconceito não é só dos outros, parte muito de nós também, crescemos com o fardo da cor, as barreiras impostas, o preconceito, e seguimos, resistimos por acreditar que um dia isso irá mudar. 

Digo novamente, como afro-brasileira que não aceito mais ser caracterizada como, mulata ou moreninha.Aprendi que isso sempre irá fortalecer o sistema racista e me diminuir, nos diminuir enquanto sujeito político dificultando o nosso convívio em sociedade, conquistas e aceitação. Nós, negros brasileiros já conquistamos muitas coisas (cotas, delegacias de crimes raciais, a obrigação do ensino de história e cultura africana nas escolas), tudo isso graças aos muitos brasileiros que já veem se reconhecendo como negros, mas ainda há muito a ser combatido para que isso não seja necessário.


I am not a being from a different world; my hair is coarse, my nose and lips are large, my skin color is not a reason for curiosity.

I am the daughter of a black father and a white mother. My father never accepted his race and my mother didn't believe I was of African descent. Since I was younger, I grew up with the idea that being black was not a good thing, thus I felt like I was being labeled as not black by a society that constantly pushes out rules. A few years ago, my hair was considered bad, "bombril" (steel wool using to clean tough surfaces), and "witch's broom". I used to hear jokes about my hair and how 'rebellious' it is; at school, I would constantly be asked to sit in the back of the classroom so that I didn't "block other students from seeing the board". 

My skin color has always been a differentiating feature (and it continues to be) and people always asked "can you tell us how it is to be that way?".... that way how? I noticed, along with my knowledge of my identity in Brazil and coincidentally not only here, that being black is only good when you're not black; when it's a t-shirt of a famous rapper, a hairstyle, or even religion, I see them appropriating our culture and symbols of resistance as a form of "homage" but they're the first ones to hide their cell phones when a black man walks by in the street...

I could have been forgotten and erased, since a long time ago coarse hair was reason to be embarrassed, but I always resisted. Resistance is something that I am thankful for, primarily because my parents never allowed me to straighten my hair or lower my head to the prejudice I experienced. "You're not black, you're a brunette", "you're not that dark, you're mulatto"; I became accustomed to these phrases that labeled me since it was never good to be black in Brazil. This story is not only mine, but surely of other girls and women who have denied or continue to deny their blackness.

Although I live in a country of great miscegenation, there are still many white people that consider themselves as the "pure race" and in turn despise blacks in spite of the fact that they too have some African roots. As a young Afro-Brazilian, I can definitely say that there is a lot of denial and racism from the white Brazilians. Many of them still have a hard time understanding that there is no reason to feel superior just because their skin color is lighter since their blood is "mixed". Each and every black person in this country knows their reality; they know that prejudice is not only from those who are not like us but sometimes from our own people. We grow up with this burden of color, the barriers that come with it, the prejudice, and we follow it all; we hesitate to believe that one day that will all change. 

I will say it again: I am an Afro-Brazilian that does not accept being labeled as mulatto or brunette. I learned that these labels will continuously reinforce racism and diminish mediminish us while the government impedes us from living in a society that gives opportunities for anyone to conquer their dreams, whether white or black. Black Brazilians have already conquered a lot (quotas, racial crimes, the need to include the African history of the country in schools), thanks to many Brazilians who recognized and accepted themselves as blacks. However, there is still a lot that needs to be done so that this is no longer our reality.